Auditório Araújo Vianna | Projeto Original | 1958 / 1964

O GUARDA CHUVA_ a Praça e o Coreto

Junto a Praça da Matriz, na “ágora” de Porto Alegre, esteve de 1927 a 1960, projeto de José Wiederspahn e Armando Boni[1] o antigo auditório Araújo Viana, no local onde está a Assembléia Legislativa do Estado. Formava a céu aberto, um espaço retangular delimitado por pérgulas, em cuja diagonal estava a concha acústica em forma de um quarto de esfera (Figura 1). Os assentos, oblíquos ao palco, eram na verdade bancos de praça e de fato continuam até hoje espalhados em várias áreas públicas da capital. No entanto, a mesma dinâmica urbana que fez desaparecer a vista do Guaíba, possível do antigo auditório e da Praça da Matriz, bem como o irmão gêmeo do Teatro São Pedro[2], levou o Auditório Araújo Viana para um outro momento de sua existência junto ao Parque Farroupilha[3]. Na década de 1950 a Assembléia Legislativa do Estado, presidida por Cândido Norberto[4], definiu pela construção de sua nova sede junto à praça da Matriz, detentora, em seu entorno, da representação edilícia do poder público estadual. Examinada as alternativas, entre o lote do Solar dos Câmaras e outras escassas hipóteses, o terreno ocupado pelo auditório oferecia uma possibilidade favorável. A comissão formada pela Assembléia para conduzir o assunto, coordenada pelo Sr. Oswaldo Goidanisch, pessoa ligada ao cinema e ao teatro, entrou em negociação com a Prefeitura Municipal de Porto Alegre, na então administração do Prefeito Loureiro da Silva, para permuta da área. A negociação através de convênio transcorreu com tranqüilidade, definindo-se pela cedência da área junto a Praça da Matriz, ocupada pelo Auditório, de propriedade da PMPA, para a construção da sede da Assembléia[5], em troca da construção de um novo auditório e um teatro para 400 pessoas, consolidando o Araújo Viana como a sede da Banda Municipal de Porto Alegre, sua função original principal. O convênio determinava a responsabilidade de administração dos projetos e execução da obra pela prefeitura e provimentos de recursos pela Assembléia Legislativa. A PMPA encarregou os arquitetos Carlos Maximiliano Fayet e Moacyr Moojen Marques, ambos funcionários da Divisão de Urbanismo da Secretaria de Obras[6] do município, na oportunidade, para colaborarem na escolha do novo local e desenvolverem, projeto arquitetônico e administração da obra. A análise realizada na ocasião, segundo Fayet e Moojen, levava em consideração a vocação urbana e pública do auditório junto a Matriz, principalmente por sua relação com a praça e a utilização intensa dos usuários do espaço público e centro cívico. O Araújo Viana tinha como principal função, a realização de retretas da Banda Municipal de Porto Alegre. O conceito original, de Auditório como extensão da área pública, ao ar livre, levou a proposta de sua implantação junto ao Parque Farroupilha[7], no setor próximo a Osvaldo Aranha, zona baixa e alagadiça, sem incidência de árvores em local ocupado periodicamente pelos circos que visitavam a cidade. A Redenção, com a inexistência do Parque Moinhos de Vento e o Marinha do Brasil, construídos posteriormente, contava como a principal alternativa de lazer de boa parte da população e com boas condições de acesso. 

A localização especifica, segundo a percepção dos autores, ainda apresentava a virtude de oferecer articulação geométrica com o eixo do Chafariz das Águas dançantes, em cuja extremidade oposta estava o monumento de Bento Gonçalves, posteriormente transferido para a Av. João Pessoa, ortogonal ao eixo monumental da Av. das Nações, construído na ocasião da exposição comemorativa da Revolução Farroupilha em 1935. Estabelecido o local, imediatamente iniciaram considerações de projeto referente à necessidade de declividade na área destinada a platéia, atendendo parâmetros de visibilidade presentes na topografia da área anterior, próxima à matriz, e ausentes no terreno plano dos campos da várzea. O entendimento inicial de partido para o projeto advém, portanto, da idéia de estabelecer uma operação sobre o terreno, criando a partir de uma topografia artificial, condições internas para a organização de um anfiteatro e externas para a desejável integração com o ambiente natural. Face ao considerável volume de terra necessário para esse conceito, e o fato do projeto vencedor para a Assembléia Legislativa propor níveis de subsolo que exigiram escavações expressivas no terreno da Duque de Caxias, ambas comissões, Prefeitura e Assembléia acordaram na retirada de terra da Matriz para a Redenção, com custo zero, casando conceito e matéria prima de ambas as praças, além da conjugação de dois momentos da história de um mesmo equipamento. O auditório veio da Praça da Matriz para o Parque Farroupilha, junto com o terreno. Dada a inexistência de um programa de necessidades oficial, ou uma demanda específica estabelecida pelo “contratante” o programa foi definido tendo como ponto de partida as funções exercidas pela banda municipal da cidade, na Praça da Matriz, agregado de outras funções que incrementaram significativamente o programa original, cuja repercussão no volume da obra foi endossado pela Assembléia: aumento de capacidade de público proporcional ao aumento populacional urbano, sanitários decorrentes, concha acústica, retro-área para a concha, administração, sala de ensaios e camarins com sanitários, além da hipótese de um teatro para 400 pessoas. A equipe de arquitetos recebeu do secretário de obras do município uma certa autonomia para determinação dos parâmetros de projeto que foi desenvolvido na Prefeitura. Além do aterro para a formação de um “terreno” no parque, outro fato determinante nas formulações iniciais, segundo Fayet, foi à questão acústica. Através de relações anteriores com representante da EUCATEX em Porto Alegre, foi veiculado estudo do engenheiro Roberto Paulo Richter, especialista em acústica, diretor do Instituto de Acústica de São Paulo, sem ônus para a PMPA[8].  Em uma análise mais precisa da localização do auditório, foram feitas medições do alto nível de ruído, junto a Osvaldo Aranha, na época trafegada por bondes, sugerindo o afastamento do edifício do logradouro, e a construção de painéis de fechamento lateral para contenção das ondas sonoras, já que desde sempre, a premissa do auditório era a de tipologia correspondente ao anfiteatro a céu aberto, como o da matriz. As paredes como painel de controle do som, no entanto não deveriam obstaculizar a conexão visual com o ambiente, sugerindo a configuração de planos soltos, com permeabilidade ao exterior. FAYET chama a atenção que o sistema de paredes soltas sob a marquise, favorecia a evacuação do auditório, após o término dos espetáculos, permitindo a saída de uma platéia lotada em menos de cinco minutos. O mesmo engenheiro projetou a concha acústica com forma invulgar, de planos fracionados. Na análise realizada pelo engenheiro, a limitação que as conchas acústicas esféricas trazem, é o excesso de concentração do som refletido em um mesmo ponto de convergência. A proposta para a nova concha apresentava, portanto o conceito de planos difusos estabelecendo faces de reflexão em várias direções, configurando a solução de maior complexidade geométrica lá construída[9]O primeiro estudo, portanto, regrava o espaço do auditório como uma modelagem do terreno circundado por alguns planos, configurando um espaço mais caracterizado como parque e prolongamento da área aberta do que como espaço construído. O estudo assinala a organização geral do auditório, ordenado linearmente sobre o eixo determinado e o terreno artificial criado, circundado pelos “planos acústicos” e encabeçado na face oposta a Av. Osvaldo Aranha, pela previsão do teatro de 400 lugares usando o palco e a sala de ensaios na retaguarda  como elementos comuns 

Segundo Fayet surgiu de Moojen a concepção de reunir o conjunto de planos com um elemento horizontal unificador, através de uma laje em forma de anel. Essa marquise, além de configurar o espaço do anfiteatro, unificando as paredes posicionadas segundo o estudo de Richter, foi imaginada também para abrigar o público emergencialmente em momentos de chuva. A marquise adquiriu um formato ovóide, em sua projeção horizontal. Definidos esses elementos, topografia, planos de fechamento, marquise e concha acústica, e estabelecida a capacidade de público julgada conveniente (4.500 lugares), o estudo inicial recebeu ainda o acréscimo de um elemento vertical, na forma de torre de marcação visual para sinalização de eventos. A torre deveria possuir um sistema de iluminação semelhante ao utilizado pela Marinha brasileira para sinalização, que projeta ao céu fachos de luz ascendentes, a partir de um conjunto de projetores que giram sobre seu próprio eixo, fazendo os cruzamentos dos fachos subirem. A idéia era que o sistema de iluminação anunciasse à cidade os grandes eventos, com um certo glamour. O sistema nunca foi instalado.  Para o projeto luminotécnico foi chamado o Eng, Sachs Perrone cuja equipe produziu uma maquete do auditório para estudos. Além da torre, um sistema de iluminação incorporado à marquise, criava no bordo interno e externo, preparado para encaixar uma luminária através de uma re-entrância em forma de calha lateral, um sistema de iluminação fluorescente em forma de anel, circundando todo o perímetro interno e externo da marquise. O cálculo estrutural da marquise e torre foi realizado por outro funcionário da prefeitura, Enga. Elis Ferreira. Mas o problema mais crítico era da concha que configurava um balanço transversal a partir de uma viga que vencia um vão importante[10]. Neste caso foi consultado o Eng. Prof. Wolf que calculou e desenhou, com um sistema de coordenas cada face da concha para execução de suas formas, bem como informou as coordenadas de cada vértice em um sistema de coordenadas tridimensional, para que a forma pudesse ser montada, já que trazia um problema considerável de geometria descritiva, além do estrutural. Realizados os projetos, a coordenação da obra ficou a cargo dos arquitetos que programaram a realização de licitações por partes. Inicialmente a obra foi marcada pelo topógrafo da Prefeitura, José da Luz que locou a posição das estacas. A construção da estrutura ficou ao cargo de empreiteira vencedora da licitação. Dentre os problemas de marcação e execução, a concha acústica apresentava um problema complexo de locação e execução de formas, onde o mestre de obras, chamado “Seu Oto Arrué” teve importante contribuição. Para os acabamentos outra empresa venceu a licitação.

A inauguração se deu em 1964, na gestão do Prefeito Sereno Chase cassado durante o golpe militar logo a seguir. Na memória de Fayet e Moojen a inauguração foi comovente ao som do concerto 1812 de Tchaikowiski, orquestrado pela OSPA, dirigida pelo maestro Pablo Kolmos, com estampidos de canhões levados ao parque para a efeméride e a presença dos dragões de Rio Pardo, perfilados ao longo da passarela de acesso. Na memória de muitos outros, óperas nos anos 1960, Música Popular Brasileira, nos 1970 e Rock and Roll em parte dos 1980.

 

[1] CARNEIRO, Luis Carlos. Porto Alegre: de Aldeia à Metropole, Porto Alegre 1992, p.20

[2] Edifício destinado ao poder judiciário. Depois de incêndio foi substituído pelo Palácio da Justiça, na década de 1950, por projeto vencedor de concurso, de autoria de Luis Fernando Corona e Carlos Maximiliano Fayet

[3] ver TOMASI, Elisabeth, DEROSSO, Simone Graciela. Auditório Araújo Viana – 30 anos,  Porto Alegre, Unidade Editorial, 1994

[4] A sede da Assembléia localizava-se em antigo casarão situado na Av. Duque de Caxias, atualmente tombado pelo Patrimônio Histórico e encontrava-se sub-dimensionado

[5] O concurso para assembléia foi realizado em, 1958, classificando em primeiro lugar a equipe de Gregório Zolko de São Paulo. A equipe de Moacyr Moojen Marques ficou entre os projetos classificados. Ver ESPAÇO ARQUITETURA. Porto Alegre, 195?, n.2,

[6] O Eng. Edvaldo Pereira Paiva era o Diretor da Divisão de Urbansimo da Secretaria de Obras, Carlos M. Fayet era Chefe de Seção e Moacyr Moojen Marques, Chefe de Setor. A equipe teve o auxílio do estagiário acadêmico Sagunto (equatoriano) e do funcionário Milton Bernardes

[7] Segundo MOOJEN, o projeto original do Parque Farroupilha de Alfredo Agache vinha, com modificações, sendo implantado gradativamente, com a criação de vários “recantos” (europeu, chinês, etc...) sendo que a área escolhida ainda não havia sido urbanizada e freqüentemente estava em más condições. A implantação do auditório, promoveu, portanto também uma ação de urbanização do setor.

[8] Fayet e Moojen, viajaram à São Paulo, para discutir com o Eng. Ritcher as diretrizes para o projeto, provenientes do estudo acústico e os parâmetros para o projeto da concha acústica.

[9] Entre os testes realizados com a concha acústica, posteriormente, o mais prosaico, realizado seguidamente pelos arquitetos, era a audição de um radinho de pilha colocado junto a concha, em qualquer ponto do auditório

[10] A concha apresenta 22m de boca, 12m de profundidade e 8m de altura.

Sergio M. Marques, 2007

AUDITÓRIO ARAÚJO VIANNA – PROJETO ORIGINAL 1958

Capacidade: 4.500 pessoas sentadas

Poço de orquestra para 60 músicos

 

Projeto e Execução da Obra

1958/1964

 

Escolha do Local, Implantação, Arquitetura, Paisagismo, Comunicação Visual e Execução da Obra

 

Técnicos da Divisão de Urbanismo da Prefeitura Municipal de Porto Alegre

Arq. Carlos Maximiliano Fayet

Arq. Moacyr Moojen Marques

Cálculo Estrutura:

Eng. Elys Ferreira

Projeto acustico da Concha Acústica:

Eng. Paulo Ritchier

Cálculo Estrutural da Concha Acústica:

Eng. Ivo Wolf

Projeto Elétrico

Eng. Raul Sacs

Projeto Hidráulico

Perrenoud e Cia. Ltda.

Especificações

Arq. Robert Levy

Sonorização:

Cotempo

Execução da Sonorização:

INBELSA, Indústria Brasileira de Eletrecidade S.A.

 

Topógrafo

PMPA - José da Luz

 

Construção

Inalco Ltda. - Eng. Pedro Gus e Eng. Samuel B. Wainer

Estaqueamento

Construtora Ernesto Woebck

Paisagismo:

Técnicos da Divisão de Urbanismo da Prefeitura Municipal de Porto Alegre

Arq. Carlos Maximiliano Fayet

Arq. Moacyr Moojen Marque

Vegetação: Arq. Udo Silcio Mohr

 

Mestre de Obras

Oto Arrué

Empreiteiro

Carlinhos

Obras de Arte:

Painel da entrada  em alto relevo- Vasco Prado

Prefeitura Municipal de Porto Alegre

Pref. Tristão Sucupira Vianna (1958 / 1960)

Pref. Loureiro da Silva (1960 / 1964)

Pref. Sereno Chaise (1964)

 

Imagens: Acervo FAM

 

 

ANTIGO AUDITÓRIO ARAÚJO VIANNA

 

Projeto e Execução da Obra 

1926/1928

 

Arquitetura 

Eng. Armando Boni

 

Imagens: Acervo FAM

BIBLIOGRAFIA

ARQUITECTURA PANAMERICANA, Santiago do Chile, Federación Panamericanan de Asociaciones de Arquitectos, n. 004, maio 1996. Arquitetura no Brasil: depoimentos.

 

ALMEIDA, Guilherme Essvein de; BUENO, M. F. T. ; Gallo, João F . . Guia de Arquitetura Moderna em Porto Alegre. 1. ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2010. v. 1500. 96p 

CANEZ, Anna Paula. MARQUES, Sergio Moacir. O Mercado Público e o Auditório Araújo Vianna: O Momento Presente. Boletim Informativo, Instituto de Arquitetos do Brasil-RS, n. 17, Porto Alegre, set 1996.

LUCCAS, Luís Henrique Haas. Arquitetura moderna brasileira em Porto Alegre: sob o mito do “gênio artístico nacional”. Porto Alegre: PROPAR-UFRGS, 2004 (Tese de doutorado em arquitetura).

 MARQUES, S. M.. FAM. 1. ed. Porto Alegre: ADFAUPA, 2016. v. 300. 448p

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MARQUES, M. M. ; MARQUES, S. M. ; MARQUES, J. C. ; FAYET, C. M. Patrimonio e Cidadania. AU. ARQUITETURA E URBANISMO, v. 279, p. 20-27, 2017.

MARQUES, M. M. ; MARQUES, S. M. ; MARQUES, J. C. . Moojen e Marques Arquitetos Associados: Auditório Araújo Vianna, RS DESPEDEM-SE CÉU E ESTRELAS E ESTREIA MANTA EMBORRACHADA. Projeto Design, v. ArcoWeb, p. 01, 2016.

MARQUES, S. M.. O Anfiteatro, a Foice e o Martelo, o O.V.N.I. e o Guarda Chuva. In: MARQUES, Sergio Moacir; COMAS, Carlos Eduardo; PEIXOTO, Marta. (Org.). O Moderno já Passado | O Passado no Moderno - reciclagem, requalificação, rearquitetura. Ied.Porto Alegre: Ritter dos Reis, 2009, v. VI, p. 160-178.

POLTOSI, Rodrigo. ROMAN, Vlademir. Guia de Arquitetura de Porto Alegre. Escritos, Porto Alegre, 2016.

SEGAWA, Hugo. Arquiteturas no Brasil (1900-1990). São Paulo: Edusp, 1998.


XAVIER, Alberto/MIZOGUCHI, Ivan. Arquitetura Moderna em Porto Alegre. São Paulo: Pini, 1987.

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