Casa Mello Pedreira

A Casa do Patrão | Casa Mello Pedreira


O efetivo ingresso de Moojen em um repertório mais sofisticado da arquitetura moderna, tanto em relação ao partido, elementos que compõem o espaço e principalmente na depuração de detalhes e materialidade, das partes internas e externas, foi na obra feita para o principal cliente. O projeto para a casa do engenheiro Joaquim Alfredo de Mello Pedreira, na Rua Lucas de Oliveira, dono e um dos diretores da contrutora Mello Pedreira, afiançava a relação de confiança, pavimentada desde os primeiros trabalhos, ainda como estudante, cuja raiz estava, além de nas boas afinidades pessoais, na crença na arquitetura moderna posta em marcha por esta geração de arquitetos e, neste caso, em Moojen em particular. Pedreira, assim como muitos engenheiros e empresas de construção de sua geração, percebia as mudanças a caminho, a diferença da arquitetura produzida pelos jovens arquitetos formados pela nova Faculdade de Arquitetura da UFRGS, a arquitetura moderna defendida arduamente por estes e os velhos projetistas, que manipulavam o “moderno” como um estilo com roupagem de soluções gastas. Portanto, como aspirante ao moderno, assim como parte da sociedade brasileira e gaúcha, e fiador da arquitetura moderna nos investimentos de sua construtora, ao realizar sua própria casa, selou com Moojen a cumplicidade arquitetônica.
O projeto da casa tinha o ar senhoral das arquiteturas cariocas, hibridizando soluções modernas com elementos da tradição brasileira colonial, como nos projetos de Lúcio Costa, em especial a Casa Argemiro Hungria Machado1 (1942), adotadas de alguma maneira nos projetos que Edgar Graeff construiu no Rio Grande do Sul, em particular a Residência Israel Iochpe (1953).  O paralelo é pertinente na adoção do telhado em quatro águas à vista, com telhas de barro tipo canal, na simetria predominante da fachada principal, nas molduras que envolvem os planos de aberturas dos dormitórios, com venezianas de contrapeso e janelas guilhotina, dentro de panos de madeira e no uso dos combogós. No entanto, distingue-se das anteriores pela introdução de elementos que se encaminham a certa abstração neoplástica através de seu interesse na obra de Frank Lloyd Wright3 e, a seguir, dos americanos da Costa Oeste4. Esta tendência se pode observar na maneira como as partes estão associadas, diferentemente de Costa e Graeff, há uma progressiva transfiguração da ênfase nos volumes, acentuando a relação entre os planos e a independização formal entre as partes. Examinando a fachada principal, aparentemente a mais tradicional de todas, percebe-se o nítido descolamento do volume do telhado em relação ao corpo principal da casa, através do recuo da viga antepondo-se ao plano de alvenaria revestido com pastilha “confete”.
Este, por sua vez, segue autônomo além dos limites da casa e do beiral do telhado, sem se conectar, todavia, com o plano de tijolos à vista que avança pela divisa, ultrapassando lateralmente a varanda que ele cerra. Assim, entre o plano horizontal de madeira escura que reveste o beiral e acentua sua flutuação, a viga de bordo e as paredes que não se tocam, o jogo abstrato de planos se arma de maneira elegante e convincente, de princípios formais próprios que a arquitetura moderna logrou consensuar nos anos 1950. O princípio se mantém, assim como na arquitetura norte-americana e paulista, na criação de pátios fechados por planos externos, que se prolongam desde os ambientes internos de estar, com pérgulas que cobrem os pátios, protegendo-os, e se prolongam internamente, na forma de desníveis do forro. Tijolos à vista pintados de branco, luminárias tipo pastilha e móveis de vime com estrutura de ferro redondo dão o tom típico.
Nada típico, no entanto, está no jardim: dentre um traçado igualmente neoplástico, onde entre passeios, espelhos de água, bancos, escadas e floreiras de pedra, arranjados em formas geométricas conjuntamente com os canteiros de plantas, Moojen projetou para Mello Pedreira um galinheiro. Não um galinheiro qualquer, já que o engenheiro, oriundo do interior, gostava de criar galinhas e ter ovos frescos em casa. O projeto, além de ter um sofisticado sistema de ventilação para as aves e outro para recolher os ovos externamente, assim como todos os demais elementos do paisagismo, projetados em um desenho total, obedecia aos mesmo critérios formais do todo. Possivelmente, portanto, o primeiro galinheiro moderno do Brasil com arquitetura wrightinana, brises e teto plano.

Sergio M. Marques, 2017

FICHA TÉCNICA

Local: Rua Lucas de Oliveira (demolida), Porto Alegre

Projeto Original, 1958

Arquitetura:  Arq. Moacyr Moojen Marques (1930)

projetista Joaquim Max Warchavsky

Fotografias:

Colorida: Moacyr Moojen Marques

Preto e Branco: João Alberto da Fonseca

BIBLIOGRAFIA

MARQUES, Sergio Moacir. FAM, Associação dos Professores da Faculdade de Arquitetura de Porto Alegre  - ADFAUPA, Porto Alegre, 2017

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