Av. Ipiranga - Via Universitária

Av. IPIRANGA e ARROIO DILÚVIO – VIA UNIVERSITÁRIA - MEMÓRIA

 

A necessidade de saneamento de apreciáveis áreas da Cidade Baixa, como a Ilhota, parte do Menino Deus e Rua da Margem (atual João Alfredo), somado aos cíclicos alagamentos causados pelo Arroio Dilúvio, responsável pela drenagem dos vales da Agronomia e da Glória, ditaram as retificações e contenção do seu geocurso entre diques, até a foz. O projeto ocasionou deslocamento do ponto de deságüe do arroio canalizado, mais ao sul que o original, criando a atual Avenida Ipiranga (construída na década de 1940 durante o governo Loureiro da Silva), com pistas elevadas sobre diques laterais de contenção, que se integram ao sistema de proteção contra as cheias do estuário Guaíba (que envolve 60 km de diques, inclusive o muro da Mauá). A avenida constituiu-se em obra crucial para a cidade, em razão da estruturação urbana e saneamento da região, permitindo também, através da construção das obras de arte, o desaparecimento do obstáculo natural  entre as ligações urbanas na direção sul, recuperação de áreas do antigo leito, reloteamento da Ilhota e, principalmente, a construção de trecho da Avenida Primeira Perimetral e obras resultantes, entre elas, o Largo dos Açorianos, por onde o Arroio Dilúvio passava por baixo da ponte de pedra, hoje monumento aos primeiros colonos portugueses que avançaram no território através de seu leito.  Desde a década de 1930, os Urbanistas Edvaldo Pereira Paiva e Ubatuba de Farias, projetavam a estruturação do aterro da Praia de Belas através de desenho urbano polarizador na criação de novo portal de entrada da cidade, a partir do rio, de caráter cívico, fortemente influenciado pelo projeto de Agache para o Rio de Janeiro, conjugando com o pórtico da Av. Sepúlveda, na Av. Mauá, ligado ao porto, o papel de espaço convergente e centralizador do coeur de Porto Alegre (Figura 1). Ajustado ao traçado radial determinante, avenida Borges de Medeiros e o Arroio Dilúvio retificado convergeriam em traçado sinuoso para este cressent monumental,  indutor da expansão da área central da cidade. Obra não realizada, remanesceram projetos de pontes e mobiliário urbano de desenho moderno influenciado pelo art decó  e expressionismo dos anos 1940. Expressão histórica, monumentalidade formal urbana e paisagística, polifuncionalidade infra-estrutural e intermodal aportam à Av. Ipiranga carga simbólica e funcional de primeira grandeza. A proposta sumariamente traçada aqui, com a pretensão de esboçar uma hipótese factível e realista, objetiva explorar esta vocação potencializando os equipamentos e infra estruturas existentes, e induzindo o desenvolvimento de outros, através de incremento tecnológico, infra estrutura, mobilidade urbana e qualificação formal dos elementos urbanos correspondentes, dentro de nova identidade – Avenida Ipiranga – Via Universitária:

1 – Conceito: Otimização da Avenida Ipiranga como espaço urbano qualificado para atividades relacionadas ao meio universitário e institucional, a exemplo do BUS – Barrio Universitário de Santiago[1], através da implantação de transporte público eficiente, de baixo impacto ambiental e infra-estrutura apropriada ao potencial cultural e à vitalidade latente em contextos urbanos ligados a universidade e instituições públicas (Figura 3);

1.1 – Metrô aéreo: Sistema de transporte de massas ligando o terminal do Mercado do TRENSURB (por extensão conectando a região metropolitana, além de rodoviária e aeroporto), no centro de Porto Alegre até o Campus do Vale da UFRGS em Viamão, por via aérea, com tecnologia tradicional como a utilizada na ligne 6 de Paris entre as estações Dupleix e Trocadero, a exemplo dos antigos metrôs aéreos de Chicago, ou experimentais como o aéromóvel de Porto Alegre a exemplo de Orlando nos E.U.A. A linha, (conforme Figura 3), ligaria o centro da cidade e o extremo leste, conectando o Cais Mauá do porto, Usina do Gazômetro, CIENTEC, Centro Administrativo (Federal, Estadual, Municipal), Shoping Praia de Belas, Policia Federal, Zero Hora, Zaffari Bourbon, Hospital Ernesto Dorneles, Campus Médico da UFRGS, Campus Olimpico da UFRGS, PUCRS (quarenta mil pessoas ligadas à PUCRS - com possibilidade de conexão ao trem aéreo em estudo para o campus), Colégio Champagnat, Hospital São Lucas, Campus do Vale da UFRGS (ingressando dentro do campus – sessenta mil pessoas ligadas a UFRGS). A linha, sobre via radial, cruzaria com as três perimetrais do sistema viário principal da capital, além de outras importantes transversais, estabelecendo conexão modal com outros sistemas de transporte público. No cruzamento com a segunda e terceira perimetral haveriam ainda viadutos para automóveis. Desta maneira e com um raio de quatrocentos metros de abrangência para cada lado, a via universitária conectaria ainda o Colégio Julio de Castilhos, e indiretamente o Campus do Centro da UFRGS, o Centro Universitário UniRitter e a Universidade Anhanguera em construção na av. Cavalhada.

1.2 – Serviços e equipamentos: Vinculadas as estações do metrô, a exemplo dos sistemas de metrô subterrâneo de Barcelona ou Montreal, serviços e comércio de conveniência destinados principalmente à estudantes e pessoal ligado às universidades e instituições tais como livrarias, copiadoras, cafés além de farmácias, lanchonetes, etc.  Intercalando com as estações, áreas de estar (refúgios), lazer e estudos ao ar livre, equipadas com mobiliário urbano adequado ao público universitário e wireless, ao longo da via, análogo ao conceito do Barrio Universitário de Santiago. Junto as margens do arroio, na cota de nível do dique, ciclovia e passeio para corridas e caminhadas, tratamento paisagístico e mobiliário urbano de bom desenho (Figura 6 e 7);

1.3 – Habitação e infra estrutura urbana: A avenida Ipiranga com seus setenta metros de largura é uma das vias de porto Alegre que, ao contrário de outras onde o fenômeno equivocadamente está ocorrendo, suporta bem a verticalização. A proposta é estimular edifícios de habitação coletiva, até 70 metros de altura, com unidades adequadas a estudantes e infra estrutura de uso comum como a unité de Marseil de Le Corbusier, porém com térreos interligados por galerias, destinados ao comercio, serviços, cultura e lazer, a exemplo da avenida La Cañada em Córdoba na Argentina.

1.4 – Paisagem e Meio Ambiente: Implantação integral das obras de saneamento do PISA – Programa Integrado Sócio Ambiental, em andamento em Porto Alegre, canalizando todo o esgoto cloacal e saneando o Arroio Dilúvio. Implantação de sistema de bombeamento de águas do Guaíba até a cabeceira do Arroio Dilúvio, criando sistema permanente de limpeza da água e controle de nivelamento. Com a construção de barragens, surgiriam algumas laminas d’água apropriadas para o nautimodelismo, pesca, esportes e contemplação, associadas as áreas de estar e lazer, como no Puerto Madero em Buenos Aires e/ou ainda comércio de flores junto as margens, como em Xochimilco na Cidade do México. Eliminação de toda a fiação de alta e baixa tensão para canalização aérea junto a via do metrô além de iluminação pública suspensa. 

Desta maneira, com urbanismo e arquiteturas, entendemos que, entre os extremos de utopias irrealizáveis ou ações acanhadas, os ideais de qualidade de vida, imaginados pelos urbanistas de Porto Alegre, desde a canalização do Arroio Dilúvio nos anos 1940, encontrariam um caminho, entre outros, de urbanidade e cidadania real, sem demagogias.

 

[1] Programa de revitalização de tradicional bairro próximo ao centro de Santiago do Chile, com a disseminação de edifícios universitários e equipamentos correspondentes, criado em 2002 pela Corporación Universitária constituída pela Municipalidad de Santiago do Chile e mais cinco entidades institucionais, entre elas a Universidad Diego Portales, cuja Faculdade de Arquitetura é dirigida por Mathias Klotz, o qual coordenou a estratégia e projetou diversos edifícios desta instituição no BUS.

Moacyr M. Marques e Sergio M. Marques, 2010

 

 

AVENIDA IPIRANGA – VIA UNIVERSITÁRIA

Zero Hora – Dezembro de 2010

MooMAA - Moacyr Moojen Marques e Sergio M. Marques

Projeto, Análise, Investigação e Disseminação

 

Já há algum tempo questões relacionadas à instrumentos de análise e meios de disseminação do conhecimento arquitetônico permeam o debate crítico da arquitetura assim como a conexão deste com o sentido comum. Neste contexto, o projeto de arquitetura e urbanismo, de caráter investigativo, não tem recebido o espaço correspondente como ferramenta intelectual. O falso dilema gerado pelo distanciamento da prática de projetos de arquitetura em relação à prospecção teórica, persistente na divergência do exercício do ofício, em oposição à reflexão critica, advém de preconceitos mútuos entre ambas as posições. O projeto como agente de investigação no campo da arquitetura - sem excluir outras modalidades indispensáveis de investigação e crítica - cujo produto, na forma de proposta espacial como análise dos problemas próprios da arquitetura e do urbanismo, apresenta resultados igualmente expressivos ao saber, talvez tanto quanto a produção textual acadêmica.  A distinção entre arquitetos práticos, por se dedicarem à prática profissional e teóricos, por se dedicarem a carreira acadêmica, só pode servir como parâmetro de opção pessoal ou ênfase na dedicação profissional, não como separação inerente a dois meios dialéticos, duas áreas interdependentes, na verdade partes de um mesmo conhecimento. Tal divisão se levada à separação e exclusão de ferramentas próprias do metiê, acarretam perdas indubitáveis. Reflexo direto dessa visão simplificadora são o pouco uso do projeto como ferramenta de investigação tanto no meio profissional quanto acadêmico, onde experiências de projeto arquitetônico, evocativas de investigação conceitual, não são devidamente qualificadas como pesquisa, enquanto outras produções acadêmicas, muitas vezes sem aferição de qualidade, adquirem salvo conduto cartorial[1]. Evidentemente que nem todo projeto de arquitetura traz investigação relevante, assim como nem todo texto, guarda garantia de qualidade. No entanto o ateliê de projeto, como já observou Schön[2], constitui, através de seus procedimentos típicos - da concepção do projeto aos mecanismos de discussão e análise através de painéis coletivos - ambiente privilegiado para o desenvolvimento de determinadas investigações do conhecimento geral e, evidentemente, as do campo da arquitetura e urbanismo. Dessa maneira o projeto como poderosa ferramenta de análise e prospecção, necessita de meios de valorização, de forma a oferecer material relevante à cultura geral.

Neste sentido a iniciativa do Jornal Zero Hora de Porto Alegre, através de Angela Ravazzolo (mestre em História), editora geral, com a colaboração de Humberto Trezzi, repórter especial e Caue Fonseca, sub-editor, criando espaço periódico para projetos prospectivos em áreas urbanas conflagradas de Porto Alegre, merece nota. Na edição de domingo, de 19 de dezembro de 2010, na contracapa, páginas 40, 41 e 42, o convite para quatro escritórios de arquitetura, de diferentes perfis, constituídos de professores e/ou profissionais liberais, jovens e/ou veteranos, examinarem criticamente o problema urbano ocasionado pelo arroio Dilúvio em Porto Alegre, através de projeto arquitetônico, começa a compensar a já denunciada carência de disseminação pública de temas relacionados à arquitetura e urbanismo no Rio Grande do Sul. Jornais populares como o La Nación, de Buenos Aires, ou o El País de Madri tradicionalmente publicam textos críticos de arquitetos e urbanistas de interesse geral. A matéria de Zero Hora, seguindo o mesmo caminho, aponta na melhor direção. Da arquitetura e do urbanismo a serviço dos arquitetos e de todos.

 

 

Sérgio Moacir Marques, 2011

 

[1] No Rio Grande do Sul, algumas experiências isoladas tem apresentado resultados expressivos, em especial os work-shopps de projeto organizadas pela FA/UFRGS, desde os anos 1990, as oficinas de projeto realizadas pela rede de escolas sul americanas S.O.S Ciudades, da qual integra a FAU/UniRitter, as disciplinas de Projeto Arquitetônico I e II do PROPAR/ UFRGS e algumas experiências de projeto associado à investigação teórica no curso de especialização Latu Sensu – Arquitetura de Interiores – da FAU/UniRitter. No âmbito internacional, é referência o Masters in Architecture - DRL design research laboratory dirigido por Patrick Schumacker (sócio de Zaha Hadid) na London Architectural Association, cujo produto é um projeto e também os cursos de Hélio Piñon na ETSAB/UPC.

[2] Ver SCHÖN, Donald. Educando o profissional reflexivo: um novo design para o ensino e a aprendizagem. Artmed, Porto Alegre, 2000.

BIBLIOGRAFIA

MARQUES, S. M.; MOOJEN, M. . Uma Via aéra para o Diploma. Zero Hora, Porto Alegre, p. 41 - 41, 19 dez. 2010

MARQUES, S. M.. Projeto, análise, investigação e disseminação. Arquitextos (São Paulo), v. 123, p. 03, 2011.

MARQUES, M. M. ; MARQUES, S. M. . Av. Ipiranga e Arroio Dilúvio ? Via Universitária. Arquitextos (São Paulo), v. 123, p. 03, 2011.

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